Os gastos olímpicos
Embora o presidente Lula considere os resultados brasileiros obtidos em Pequim como razoáveis e o presidente do Comitê Olímpico Brasileiro, Carlos Arthur Nuzman, tenha uma visão positiva das conquistas de nossos atletas, os números frios apontam para uma performance não mais que pífia. Dos 277 atletas enviados à capital chinesa, apenas uma minoria colocou no peito medalha de qualquer das três tonalidades. Essa realidade contrasta com o esforço que o Brasil fez para enviar essa nutrida delegação à capital chinesa. Segundo reportagem do jornal O Globo, o Comitê Olímpico Brasileiro e as confederações nunca receberam tanto dinheiro público: nos quatro anos do ciclo olímpico, os patrocínios de empresas estatais e os recursos da Lei Piva despejaram nada menos que R$ 692 milhões nesse investimento esportivo. Feitas as contas, cada uma das 13 medalhas conquistadas (as duas de futebol estão excluídas, pois esse esporte não recebe dinheiro público) custou a assustadora soma de R$ 53 milhões.
Os números merecem a atenção do país. Em razão deles, o deputado federal Miro Teixeira (PDT-RJ) propõe uma comissão parlamentar de inquérito para verificar como foram usados esses recursos, que representaram mais que o dobro dos R$ 280 milhões gastos na preparação da Olimpíada anterior, em Atenas, onde o Brasil ganhou cinco ouros. A questão não está apenas e necessariamente circunscrita aos valores envolvidos. Mais do que ela, o que está em causa são os resultados, medidos seja pela contabilidade óbvia das medalhas, seja pelo crescimento geral da qualidade com que se praticam os esportes olímpicos em nosso país. A atuação insatisfatória de nossa delegação à China e a falta de condições reais de conquista de posições nos pódios revelam que, mesmo com o investimento duplicado, mesmo com os recursos da Lei Piva (correspondentes a 2% da arrecadação das loterias federais) jorrando mês a mês, há uma incógnita a ser desfeita. A preocupação com o destino e a eficácia desses recursos se justifica. Eles provêm de investimentos diretos e indiretos dos governos federal, estaduais e municipais, oriundos de impostos ou de renúncias fiscais concedidas a empresas. Nada mais normal, nem mais responsável, por isso, que uma auditoria que seja pública e transparente. Está em causa, tanto quanto os recursos em si, a imagem internacional que o Brasil projeta a partir dos jogos. Mais: para um país que é candidato a sediar os Jogos Olímpicos de 2016 e que teve na questão dos gastos dos Jogos Pan-Americanos uma história ainda confusa, o tema não é nem inócuo nem extemporâneo.
Junto com uma política de promoção dos esportes – olímpicos ou não –, impõe-se que o país tenha um controle e um gerenciamento adequado dos recursos já alocados para esse fim. As medalhas olímpicas, embora devam ser buscadas como tal, precisam ser vistas como conseqüência dessa política, quase como um resultado natural do crescimento da prática dos esportes na população, especialmente na população jovem. Pequim mostrou mais uma vez que o Brasil não é e está muito longe de ser uma potência olímpica. A busca dos porquês dessa condição é um dever das autoridades, na CPI ou fora dela, e uma imposição aos dirigentes esportivos.
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