Espanha declara três dias de luto por vítimas de acidente aéreo
Madri - Autoridades espanholas declararam na quinta-feira três dias de luto nacional pelas 153 pessoas mortas no pior desastre aéreo ocorrido na Espanha em quase 25 anos. A bandeira espanhola está hasteada a meio mastro nos edifícios públicos em sinal de luto.
O rei Juan Carlos e a rainha Sofia pretendem visitar na quinta-feira uma morgue improvisada onde as pessoas esperam encontrar os restos mortais de seus familiares.
Dezenove das 172 pessoas a bordo sobreviveram ao acidente ocorrido na quarta-feira, quando um avião da companhia aérea Spanair com destino às Ilhas Canárias caiu durante uma tentativa de decolagem no aeroporto de Barajas, em Madri.
BRASILEIRO - O Ministério das Relações Exteriores do Brasil informou na manhã da quinta-feira que um dos mortos no acidente aéreo era brasileiro. De acordo com o Itamaraty, autoridades espanholas comunicaram à embaixada brasileira em Madri que a vítima foi identificada como o brasileiro Ronaldo Gomes Silva.
A chancelaria não dispõe de mais detalhes. O Itamaraty e a Embaixada do Brasil em Madri tomarão as providências cabíveis.
Segundo o site estadao.com.br, que entrevistou um amigo do casal, o advogado brasileiro Yuri Ludwig, Ronaldo havia se casado no início de julho no Brasil com a alemã Yanina Celisdibowsky. O casal seguia para a lua-de-mel, quando Ronaldo, um motoboy de 28 anos, conheceria a família da mulher.
O colombiano Alfredo Acosta Sierra também morreu. Seu filho de oito anos foi um dos sobreviventes, assim como a mulher dele, a espanhola Georgina Mendiola.
O governo espanhol informou que havia 19 estrangeiros no vôo, dentre os quais apenas um sueco foi resgatado com vida. Entre as vítimas cinco eram alemães e dois franceses. Havia ainda um cidadão de cada um desses países: Mauritânia, Turquia, Indonésia, Bulgária, Itália e Gâmbia. Os outros estrangeiros ainda não haviam tido a nacionalidade identificada.
INVESTIGAÇÃO - A causa do acidente ainda é desconhecida e peritos investigam a tragédia. Segundo a companhia aérea, o piloto do MD-82 da empresa reportou inicialmente um problema com um dispositivo de temperatura na parte externa da aeronave. Isso fez com que o vôo sofresse atraso de pouco mais de uma hora, até a reparação do problema.
Na quinta-feira, a Spanair informou que o aparelho sofreu superaquecimento numa válvula de entrada de ar antes de uma primeira tentativa de decolagem ter sido abortada na quarta-feira. Não estava claro se o problema teria relação com o desastre.
Javier Mendoza, porta-voz da companhia, disse que o dispositivo, posicionado no bico do avião, sob a cabine de comando, estava superaquecido e que os técnicos o desconectaram para corrigir o problema. De acordo com ele, trata-se de um procedimento habitual.
Os técnicos da Spanair declararam o avião apto para voar depois de reparado o problema, mas a aeronave caiu no final da pista, durante a segunda tentativa de decolagem. Pegou fogo e foi quase totalmente destruída.
Na quinta-feira, o papa Bento XVI declarou-se "profundamente triste" com o acidente e disse estar rezando pela alma das vítimas.
O pontífice enviou uma mensagem de condolências ao arcebispo de Madri, para manifestar sua "conexão espiritual" com as famílias das vítimas e para desejar a rápida e total recuperação dos 19 sobreviventes, alguns deles gravemente feridos. O papa manifestou suas "sentidas condolências pelo terrível acidente".
CRIANÇAS - Os espanhóis estavam chocados e lamentaram as mortes do grande número de crianças no vôo. Pelo menos 22 crianças e adolescentes - incluídos dois bebês - estavam entre as 172 pessoas a bordo. Três das crianças estão entre os 19 sobreviventes do desastre.
Uma lista de passageiros divulgada pela empresa aérea Spanair mostra que muitas famílias estavam a bordo do avião - mães e pais, irmãos e irmãs, filhos e filhas - e que partiam em férias para as Ilhas Canárias, um destino turístico popular na Espanha, com muitas praias, na costa do Oeste da África.
Entre as três crianças que sobreviveram está um menino de seis anos, com vários ferimentos, inclusive na cabeça; uma menina de 11 anos que teve o fêmur quebrado; e um menino de oito anos que teve a perna quebrada. Os três foram classificados como em "boas condições" nos hospitais de Madri. As autoridades de saúde identificaram as três crianças pelas iniciais R.A.C., M.A.F. e J A.A.M. O primeiro parece corresponder ao passageiro listado como Roberto Carretero Álvarez, cuja tia confirmou que sobreviveu ao desastre, em entrevista ao jornal El Mundo.
Virginia Carretero, a tia de Roberto, disse que o sobrinho viajava com a irmã de 16 anos, Maria, para as Canárias. "Meu sobrinho de seis anos foi salvo, mas da sua irmã, que viajava ao seu lado, não sabemos nada. Talvez ela tenha perdido a memória e não possa dizer seu nome no hospital."
O médico Paco Duque, psicólogo no hospital Gregório Maranon, disse que o grande número de crianças mortas está tendo um profundo efeito sobre a Espanha. "Isso atinge o país de uma maneira muito mais dura", avaliou. "É muito mais traumático quando isso acontece com uma criança, porque é contra a natureza A sensação de impotência é muito mais forte."