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   Colunas . Léa Campos

06.08.2008 imprimir Imprimir
 

PERDENDO O CHARME

Belo Horizonte, uma das mais lindas cidades do Brasil está perdendo sua identidade. Os prédios construídos no século passado são derrubados para dar passo à modernidade, sem pensar que pode unir o antigo ao moderno sem prejuízo de ambos.

New York é um grande exemplo, mescla os velhos edifícios com a nova arquitetura, sem prejudicar a história da cidade, mantendo os símbolos que fizeram dessa metrópole uma marca mundial.

No espaço da atual rodoviária funcionava a antiga, que com a desculpa de acompanhar o crescimento da cidade e as necessidades do povo, foi demolida para dar espaço à atual.

A nova geração talvez não saiba que para construí-la, derrubaram, não apenas a rodoviária, como também um prédio de 12 andares, onde funcionava, na torre, o serviço de meteorologia.

Este prédio teve sua construção terminada em 1936 e no mesmo ano foi instalada ali  a Rádio Inconfidência, que ocupava todo o quarto andar, com luxuosos e tecnicamente perfeitos estúdios, além do auditório onde foram realizados grandes shows com artistas famosos daquela época.

Havia um restaurante de onde se acompanhava pelo “aquário” a programação da Rádio. No primeiro e segundo andares funcionavam a parte administrativa da emissora. No térreo havia a Feira de Amostras, que destacava as riquezas minerais do Estado, incluindo pedras preciosas.

A demolição aconteceu em 1967 e com ela acabou o único bandejão que existia na cidade, também o cine-teatro Paissandú onde além de filmes, promoviam lutas de boxe, sendo a única arena da cidade. Como se fosse pouco, todo o comércio (lojas, bares, restaurante, etc.), que existiam no terminal de ônibus, bem como a área onde normalmente eram instalados os circos que visitavam a cidade, desapareceram para dar passo à nova Estação Rodoviária.

O Café Pérola no coração da Praça Sete, aberto em 1954, que durante muito tempo foi ponto de encontro de políticos, advogados, engenheiros, funcionários públicos, viajantes e gente comum, que implantou o cafezinho servido no balcão e mediante a fichinha do caixa comprovando que havia pago, apagou as luzes dia 10 de Julho de 1997, bem como a perfumaria Lourdes, a Confeitaria Bar & Restaurante Ouropretana, a casa de Show Cabaré Mineiro, pontos tradicionais que sofreram o mesmo apagão.

Desapareceram de nossas vistas o Banco da Lavoura, também na Praça Sete, o  Metrópole considerado em sua época como o mais luxuoso cine-teatro do Brasil, (Goiás com Bahia) por ganância de seu proprietário, Luciano, que desrespeitando até mesmo o tombamento do prédio demolindo-o  na calada da noite. O Odeon na Floresta foi transformado em igreja. O cine Brasil na Praça 7, passa por reforma para ser transformado em Centro Cultural, mas como foi tombado, manterá sua fachada. O Tamoio deu lugar a um restaurante de comida rápida. O Guarani (Bahia) desapareceu, bem como o Avenida, o Tupi, o Astória, enfim o desespero por bons espaços no centro está acabando com nossa história.

O local onde por muitos anos funcionou a Fábrica de Cerveja Antárctica, foi transformado em Shopping, para acomodar os camelôs que existiam na cidade, recebendo o nome  de “Mall Oi”, numa alusão ao nome  da avenida onde está localizado, Oiapoque.

O Montanhês, dancing tradicional e um dos últimos lugares onde se apresentou Bienvenido Granda (1965) (cantor cubano), desapareceu sem deixar rastros e com ele outras casas semelhantes.

Os lugares famosos dão lugar à modernidade,  que serão demolidos no futuro para modernizar ainda mais, sob a justificativa de que para cada identidade perdida, outra será criada. Nunca será igual.

O Bar do Ponto ( Bahia e Tupis com Avenida Afonso Pena), fundado em 1906 foi fechado em 1940, demolido em 1959 e em seu lugar foi erguido o Othon Palace, hoje tido como um ícone de Belo Horizonte.

Para se ter uma idéia, B.H datada de 1897 teve seus prédios demolidos 23 anos depois (1920), sob a alegação de serem obsoletos.

Sem dúvida a especulação imobiliária, não somente descaracteriza as cidades, como vai destruindo suas memórias.

O último que deu adeus a Belo Horizonte foi o Supermercado Aimoré localizado no Mercado Central e que depois de 60 anos foi fechado para dar espaço a mais uma loja Ricardo Elétrico, abrindo um precedente que poderá transformar o Mercado Central em mais um Shopping Center, perdendo  sua história e seu aconchego.

A única alternativa para salvar o Mercado Central, seria a prefeitura fazer o tombamento do mesmo, porque tendo como proprietário uma associação formada pelos proprietários das barracas, não será nada difícil que outros se entusiasmem com o dinheiro e com o passar do tempo nosso Mercado Central se torne  “Mall Central”.

Ricardo Nunes, proprietário da loja adquiriu recentemente o imóvel  onde funcionava a Casa Do Wisky, também tradicional, na esquina  das Avenidas Nossa Senhora do Carmo e Contorno, na Savassi e o vendeu para o Pátio Savassi.

O casarão histórico que foi destruído pela igreja Universal, depois de muito alardear caiu no esquecimento e assim os interesses empresariais aliados à corrupção vão destruindo a capital dos mineiros.

Menos mal que o sol nasce no infinito e o nosso Horizonte continuará Belo e intocável pelos que insistem em descaracterizar nossa  Belo Horizonte.

Conheçam Belo Horizonte antes que acabem com ela.

Informar é um privilégio, informar corretamente uma obrigação.

 
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