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   Colunas . Léa Campos

23.07.2008 imprimir Imprimir
 

A IRREVERÊNCIA ESTÁ DE LUTO

O entretenimento brasileiro está de luto, o Brasil perde uma grande artista: Dercy Gonçalves.

Segundo sua certidão de nascimento Dolores Gonçalves Costa nasceu dia 23 de Junho de 1907. Segundo ela, o pai  a registrou dois anos depois, portanto ela nasceu em 1905, o que significa dizer que ela completou 103 anos.

Encantada com uma companhia de teatro que esteve em sua cidade, Dercy fugiu de casa aos 14 anos, mas jamais se esqueceu de sua querida Santa Maria Madalena, onde mantinha uma casa que foi transformada, por ela, em museu.

Sua estréia no Rio de Janeiro aconteceu em 1929 na Peça Leopoldina, integrando a Companhia Maria Castro.

Desde o início mostrou sua inclinação para a Comédia e para o teatro de improviso, sendo figura constante do “teatro de revista”, no auge naquela época, estrelando várias peças, como “Rei Momo na Guerra” em 1943.

Seu primeiro filme foi “Samba em Berlim”, no mesmo ano, tendo acumulado mais de 20 filmes e novelas como “Que Rei sou eu”  e “Deus me acuda”, além de inúmeras peças de teatro.

Sua carreira televisiva iniciou-se na década  de 60 na TV Excelsior (Rio de Janeiro), mais tarde foi contratada pela TV Globo, onde participou de várias novelas e por último havia assinado um contrato vitalício com a TV de Silvio Santos, tendo participado várias vezes da “Praça é Nossa”.

Sua forma simples de ser e sua maneira de dizer as coisas, fizeram dela a pioneira do palavrão e a mais irreverente de todas as épocas.

Gritava aos quatro cantos que jamais fez uma plástica, pois  certas partes do corpo não podiam ser esticadas, dizia ela.

Entre os muitos prêmios que recebeu se encontra o Troféu Mambembe “Melhor Personagem de Teatro”. Entre as inúmeras homenagens que foi alvo está a que foi prestada pelo Carnaval do Rio de Janeiro , quando foi samba enredo da escola  Unidos do Viradouro, que a destacou com o enredo “Bravíssimo, Dercy Gonçalves o Retrato de um Povo, em 1991.

Uma de suas maiores irreverências foi desfilar num carro alegórico no carnaval carioca, aos 83 anos, com os seios à mostra, causando como de costume, grande controvérsia.

Ao completar 100 anos, foi alvo de muitas homenagens e se viu obrigada a cobrar por sua presença em algumas dessas festas, por ter sido vítima de um desfalque em suas economias por parte de um empresário inescrupuloso, obrigando-a a retomar sua carreira apesar da idade.

Sua terra natal não ficou de fora de seu centenário, durante uma semana de festa batizada de “Dercy 100” foram exibidos seus filmes, além de uma grande programação artística onde uma clone-mirim foi escolhida para representá-la.

No dia do aniversário foram dois bolos, um na praça principal e outro em frente a Matriz, que lotou para assistir uma missa dedicada a Dercy.

À noite ao cortar o bolo disse em entrevista:“Eu fugi de Madalena com 14 anos, não sabia nem trepar... em laranjeira"!

Perguntada sobre seus amigos Fausto Silva e Silvio Santos disse: “um beijo no traseiro de Faustão" que havia feito uma festa semanas antes para ela e para Silvio o recado: “ Eu te amo p....”, que a presenteou com uma jóia com diamantes. 

Dercy provou que as palavras toscas podem ser usadas sem ofender as pessoas, pois nunca usou os palavrões com essa intenção, seu objetivo era o riso e a descontração das pessoas.

Sua morte deixa um enorme vazio nas artes cênicas, que certamente jamais será preenchida. Dizem que ninguém é insubstituível, mas artistas como Dercy, Consuelo Leandro, Grande Otelo, Zé Trindade e outros de igual valor jamais terão substitutos.

Segundo Dercimar,  filha da atriz e alguns amigos, o enterro será em sua terra natal.

A festa da padroeira de Madalena foi interrompida com a morte de Dercy e seu enterro que seria na segunda-feira foi transferido para ontem para coincidir com a data da padroeira da cidade, cujo prefeito decretou luto oficial de  uma semana.No Rio, seu corpo foi velado na Assembléia Legislativa de onde sairá para a terra que a viu nascer.

Apesar de sua longevidade Dercy pensava na morte, tanto que comprou um túmulo no cemitério de sua cidade e decorou a lápide de acordo com seu gosto.

Perdemos uma identidade dentro da diversão, mas conhecemos uma mulher que não economizou forças para mostrar sua faceta cômica, irreverente e desbocada, marca registrada desta grande pioneira.

101 ou 103 anos, não importa! Dercy os  viveu como ninguém, com seu deboche e mesmo sendo desbocada  deixou amigos por onde passou sempre com seu sorriso maroto. Tive o privilégio de conviver com ela em 1963,  quando fui garota propaganda, na TV Excelsior do Rio de Janeiro.

Que os Anjos abram suas asas para recebê-la no infinito. Descanse em paz.

Informar é um privilégio, informar corretamente uma obrigação.

 
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